Silvio, ditadura e submissão

Duas pessoas estão em destaque na foto acima. Um é Silvio Santos, que dispensa apresentações. O outro é João Figueiredo, o último dos presidentes da ditadura que se seguiu ao golpe de 64 - que todo mundo afirma ser uma ditadura militar, ignorando a decisiva participação de civis no golpe, em especial os civis ligados ao governo dos EUA.

A foto é um lembrete de que Silvio, assim como os outros donos da mídia, está disposto a cortejar poderosos para conseguir o que quer. Não que eu esteja sendo um iconoclasta televisivo querendo destruir a imagem de Silvio Santos, mas é que esta semana saiu um meme transformando o Homem do Baú num herói dos Revoltados Online.

Segundo a imagem compartilhada no Facebook por centenas de revoltadinhos, Silvio orientou o SBT a ser "oposição de qualquer um que ferrar o povo". "Agora é pra bater até cair. E se não cair vamos morrer tentando. Conto com a audiência do povo de bem". A imagem já foi devidamente desmentida por Gilmar Lopes no E-Farsas, não é o caso de se preocupar com ela. Mas chama a atenção o fato dos revoltados tentarem transformar Silvio num guerrilheiro a favor do povo contra os governos malignos (os do PT, claro). Se você realmente acredita na boa vontade do patrão é porque você não sabe como ele construiu seu império televisivo.

Antes de continuar, é bom lembrar que a única emissora que realmente se opôs ao golpe de 64 e à ditadura dele decorrente foi a TV Excelsior, de Mário Wallace Simonsen, apoiador de Juscelino Kubitschek na eleição de 1965 (que nunca aconteceu) e do governo de João Goulart (que o golpe depôs). A Excelsior teve sua concessão cassada pela ditadura e saiu do ar em 1970. Esse era o destino de quem realmente se opunha à ditadura: perseguição e censura. Se alguma emissora sobreviveu aos anos 60 e 70, pode ter certeza de que ela apoiou os ditadores de plantão. Globo, Record e Bandeirantes trafegaram às escuras.

Foi nos anos 70 que Silvio ganhou sua primeira concessão de TV. O Notícias da TV de Daniel Castro revelou recentemente que Silvio tentou, já em 1971, ficar com o canal da Excelsior, mas o governo da ditadura recusou. Não porque fosse um "subversivo", como eles gostavam de chamar os opositores, mas porque o governo temia que o novo canal fosse popularesco em excesso. Em 1976, Silvio chegou lá: nesse ano foi ao ar a TVS, canal 11 do Rio de Janeiro. Um ano antes, Silvio mandou a seguinte mensagem ao presidente Ernesto Geisel:

É meu desejo formar uma rede de emissoras de televisão que aumentará a produtividade [sic] Nacional, auxiliando as pequenas e médias empresas com publicidade sem ônus [sic], profissionalizar os universitários de talento artístico, ampliar o mercado de trabalho para o Artista Brasileiro e dar ao Povo do nosso país uma programação que reúna Cultura [sic], Informação, Música e Entretenimento. 

Esteja certo de que eu não vou decepcioná-lo. Pode confiar.

Ajude-me a ajudar o Brasil, permitindo que este desejo se torne muito breve em realidade.

Em 1980, a Rede Tupi, dos Diários Associados fundados por Assis Chateaubriand, saiu do ar atolada em dívidas e o Brasil ficou com canais de TV vagos e sem imagem - era o espólio da Tupi, que incluía os canais 4 de São Paulo e 6 do Rio de Janeiro. O governo Figueiredo decidiu dividir o espólio em duas partes: uma encabeçada pelo 4 de São Paulo e outra encabeçada pelo 6 do Rio de Janeiro. Essa última incluiria também o canal 9 de São Paulo, inutilizado desde o fim da Excelsior.

Apresentaram-se para a compra, entre outros, os grupos Abril e Jornal do Brasil, mas Roberto Marinho temia a ambos, o primeiro pela capacidade de levantar dinheiro dos EUA - como o próprio Marinho fez ao montar a TV Globo em parceria com o grupo americano Time-Life - e o segundo pela tradição e rivalidade no mercado de jornais do Rio.

No livro O Quarto Poder - Uma Outra História, Paulo Henrique Amorim conta que "Marinho procurou demonstrar que o mercado brasileiro não comportava outras redes de televisão. Só havia dinheiro para ele. Chegou a enviar documentos minuciosos e secretos ao presidente da República, que foram parar nos arquivos pessoais do secretário particular do presidente, Heitor Aquino Ferreira".

Contra a Abril pesou a questão da nacionalidade: a legislação da época proibia que estrangeiros tivessem empresas de comunicação e os Civita não apenas sabiam levantar dinheiro fora do Brasil como eram eles mesmos estrangeiros - Victor nasceu nos EUA e viveu na Itália antes de se fixar no Brasil; Robert, que depois virou Roberto, era italiano e viveu um bom tempo nos EUA, onde trabalhou. Leonel Brizola se perguntou uma vez: "Quantos passaportes têm os Civita?"

Contra o JB, pesava a péssima administração (nos anos 80, o JB já estava morto. Foi enterrado nos anos 2000) e a desconfiança que Figueiredo tinha quanto ao governismo do Nascimento Brito, dono do Jornal.

Por fim o espólio da Tupi foi dividido entre Adolpho Bloch, que levou a Tupi do Rio e fez a Manchete, e Silvio Santos, que levou a Tupi de São Paulo e transformou a TVS em SBT.

Mais uma vez citando o livro de PHA, "talvez o que tenha pesado mais a favor de Silvio Santos foi o fato de ele possuir amigos do peito no governo. Délio Jardim de Mattos, ministro da Aeronáutica nos governos Geisel e Figueiredo, era seu fã. Além disso, Silvio tinha a simpatia de Dulce Figueiredo, mulher do presidente e parente de Carlos Renato, jurado de um de seus programas de auditório". Segundo uma matéria da Veja em 2000, "os militares, em geral, o viam com simpatia". Dizem que o próprio Nascimento Brito chegou a prever que, com os canais de televisão, Bloch e Silvio jamais trairiam o governo.

Dito e feito: uma das primeiras coisas que o SBT fez foi exibir um quadro "jornalístico" chamado "A Semana do Presidente", no qual, segundo a Veja, "mostrava imagens oficiais de Figueiredo, como se isso fosse a coisa mais interessante do planeta". Foi uma das várias formas de agradecer pelos canais que recebeu.

Silvio também nunca pensou em tornar o SBT maior que a Globo, o que fez que a coisa ficasse em casa também para Roberto Marinho. O autor destas linhas lembra até hoje do slogan "SBT, na nossa frente só você", uma reedição mais, digamos, sutil do antigo slogan "líder absoluto da vice-liderança". 10 pontos eram o suficiente para que Silvio tivesse uma estrutura empresarial que lhe convinha. Hoje, com a migração da audiência, 5 ou 6 pontos bastam.

Quanto à independência em relação ao dinheiro público, a primeira coisa que Silvio temeu quando Rachel Sheherazade (é assim?) falou do "marginalzinho" foi que o "SBT Brasil" perdesse o patrocínio da Caixa. Silvio proibiu os jornalistas da casa de opinarem mais por causa disso do que por qualquer compromisso com os direitos humanos. A parte mais sensível do corpo humano é o bolso.

Silvio não é um vendido aos governos, mas a imagem de velho caduco que ele exibe em seu programa dominical não condiz com a realidade. Ele é muito mais esperto do que se diz e sabe como ninguém o caminho para se obter boas vantagens. Ou, como se escreveu na matéria da Veja, "não que Silvio apoiasse politicamente os militares. Beneficiava-se deles".

E pra falar a verdade, que bom que Silvio não mandou bater no governo. A função do jornalismo não é essa...

Gui ADN

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